Rolê, parte 2 - velhomundo insular

OBS: Fiz uma viagem curta à Europa em busca de intercâmbio entre iniciativas de cultura digital, arte e apropriação crítica de tecnologias. Agradeço ao programa de Intercâmbio do Ministério da Cultura do Brasil pelo apoio oferecido.

Duas horinhas me levaram de Berlim à Inglaterra, em um vôo da easyjet. Comida não incluída, fila pra pegar os melhores lugares, pouco espaço entre os assentos que não reclinam. Mas o preço compensou. Desci em Liverpool, passei pela alfândega da maneira mais rápida e fácil das cinco vezes que entrei no Reino Unido. "Vou participar de um evento em Manchester, fico em tal hotel". A mocinha nem pediu pra ver o convite, reserva do hotel ou quanto dinheiro eu tinha. Carimbou e desejou uma boa estada. Eu já tinha comprado pela internet a passagem de ônibus até o centro de Manchester. Fui curtindo o sol estendido da primavera europeia - já eram mais de sete e meia, e ele ainda bem acima do horizonte. Sacando o sotaque totalmente diferente daquela parte da Inglaterra - meio rasgado, mas seco - uma musicalidade diferente, mas sem terminar direito as palavras.

Manchester, England, England. Across the Atlantic sea...

A caminho de Manchester, um monte de bairros com casinhas. A estabilidade - e o tédio - das zonas que criaram a própria ideia de classe média. A caminho de um dos epicentros da revolução industrial, onde Engels escreveu "A situação das classes trabalhadoras na Inglaterra". Muito tijolinho vermelho, muito gramado verde e mais alguns campos amarelos de canola.

Vão central do BritanniaNo centro de Manchester, apesar de o sol ter brilhado boa parte do dia, a temperatura era de 11 graus - e mais tarde ainda cairia para 7.6 graus. O Britannia é um hotel grande, em um prédio antigo e com um quê de decadente - o aquecimento do quarto não funcionava, a TV oscilava entre colorida e PB, e a internet era um lixo. Mas eu fiquei em um quarto no penúltimo andar, de frente para o sol que se punha quase às nove da noite. E tinha banheira, e uma escadaria daquelas de filme. Saí para bater um rango, e percebi mais uma vez como a cidade é barata em relação a Londres - comi um Chicken Tikka Masala bem servido com um pint de Ale por cinco libras e pouco. Manchester é uma cidade universitária - muita gente jovem na rua, um monte de bares com som e gente de vários lugares do mundo. Eu estava a um quarteirão dos Piccadilly Gardens, no centro. Logo em frente descobri o KRO Bar, com internet grátis e confiável, onde voltaria quase todo dia.

Contact TheatreNo dia seguinte, fui visitar o arc Space (relato completo aqui). Na saída, Vicky me apresentou na rua para Franco, um senhor italiano reputado como anarquista que alguns dias depois me mandou alguns DVDs selecionados. Encontrei uma lavanderia e dei umas voltas pela cidade, sem muito compromisso. Tentei até ir à abertura da exposição Serendipity City, mas eles encerraram exatamente no horário previsto (21hs). A pontualidade britânica funciona na entrada e na saída. De volta ao hotel, percebi que eles tinham resolvido a falha do aquecimento - trouxeram um aquecedor elétrico. Dormi melhor nessa noite. Pela manhã, fui para o Contact Theatre, nó principal do Future Everything, para uma conversa com Vicky Sinclair e Russel Clifton (que também relatei aqui). O GloNet (evento enredado global) do Future Everything já estava rolando. Assisti a alguns pedaços, depois desci pra almoçar no café. À tarde rolou a sessão remota com São Paulo, que relatei com mais detalhes aqui.

Monitored Landscape No. 16No fim da tarde, dei uma passada pela exposição CU (:P), curada pela Contents may vary no Copperface Jacks, subsolo do The Palace Hotel. Algumas peças bem interessantes ali, talvez mais ainda pelo contraste com o cenário de pub. Gostei da Monitored Landscape No. 16, do Thinking Through Method (Cooper), do Death Calls the Tune, do I'm a Tape Recorder Maniac!, do Organised Sound e do Resonant Queue. Mais sobre a exposição, aqui. Não resisti e peguei na saída um bottom com o nome da exposição.

Na sexta-feira pela manhã, cheguei no meio do painel "cities of insurrection", mas saí logo. Encontrei Stephen Kovats, organizador da Transmediale de Berlim, e meu amigo Tapio Makela no café. Stephen me deu uma cópia impressa do livro collaborative futures. Depois pulei para a sessão "doing it together", que começou justamente com Mushon Zer-Aviv, um dos autores do livro. Fiz algumas anotações durante o debate:

Mushon

  • Código e wikipedia têm fundamentos racionais. O design não.
  • As pessoas costumam entender colaboração como "colocar as coisas online".
  • Cultura livre é abrir, software livre é colaborar.
  • Shiftspace
  • Quando for possível, codificar e usar sistemas de controle de versão.
  • Publicar os arquivos master. Por exemplo, usando o dropbox.

Codificando:

  1. pesquisa enredada;
  2. linguagem extensível;
  3. documentar a linguagem.

A apresentação do Mushon está online: http://github.com/mushon/osd-presentation

Escalar a subjetividade não é uma questão nova. Sempre vai dar errado. Deixar a opção para forking.

Falou mal de patentes, disse que temos que trabalhar mesmo para oferecer alternativas à apple.

O debate continuou com Alexandra Deschamps-Sonsino (portfolio), da Tinker London. Depois descobri que ela tinha estado também na Lift, apresentando o projeto Homesense. Ela começou falando um pouco sobre as mudanças no design de produtos desde a época em que estava na faculdade. Mais anotações abaixo:

Projeto dela: homesense. Inovação dentro de casa - criar novos produtos. Desenvolvido em parceria com uma grande empresa de energia.

Iphones e afins têm sucesso por que são desejáveis. se começarmos a criar produtos e serviços desejáveis, isso pode mudar.

Questões

Mushon: as pessoas querem ser dominadas. anarquismo é inspirador, mas complicado.

Em seguida, Alison Powell falou sobre o papel da mídia e dos cafés na criação de uma esfera pública ao longo dos últimos séculos, e questionou sobre como isso se articula com as redes hoje em dia. Eu precisei responder alguns emails importantes e acabei perdendo boa parte da apresentação dela, infelizmente.

Durante o debate, um camarada sentado ao meu lado me ajudou a conectar a fonte do meu laptop. Depois ainda conversamos um pouco sobre nossos computadores (ele tinha um EEE 701). Só depois que o debate acabou foi que nos descobrimos: ele era Brian Degger, que conversou comigo pela lista Bricolabs avisando que estaria no Future Everything. Brian está envolvido com alguns projetos muito interessantes de ciência de garagem, e vai participar do Interactivos? em Madrid daqui a duas semanas. 

No horário do almoço, saí para dar outra volta pela cidade. Voltei mais tarde para o painel Interfaces Lúdicas. Cheguei a tempo de pegar a apresentação do Tapio:

  • Ben Schneidermann - designing the human interface
  • ideias de interface costumavam ser muito baseadas nas telas. tapio levanta a questão sobre as interfaces no mundo real.
  • as modalidades lúdicas mudam com novas tecnologias. videoativismo nos anos sessenta. media van. ant farm collective.
  • yes men - lúdico, mas como descrever o aspecto da interface?
  • locative media. blast theory / proboscis. play pode se mudar da tela para vizinhanças orientadas a objetos.
  • o papel da ambiguidade no design. coisas lúdicas têm a ver com ambiguidade e não-intencionalidade.
  • feral robots.
  • Nuage Vert
  • Snout
  • Performance lúdica e absurda com tecnologia

Depois dele, Margarete Jahrmann falou sobre a Ludic Society

Depois ainda dei um pulo no debate sobre Nova Criatividade, onde falava a incrível Anab Jain, do Superflux. Para ela, "Através de conflitos e tensões, boas coisas podem emergir".

Olhando pra trás, mais algumas notas sobre o Future Everything:

  • os temas do festival e da conferência acertaram em cheio algumas questões muito presentes: eventos distribuídos, open data, urbanismo experimental, serendipidade, conectividade ilimitada, prototipagem e fablabs. Nesse sentido, continua sendo um evento que me faz aprender bastante. Eu tenho a sensação de que ele não perde muito tempo dourando a pílula, tentando criar um clima de abstração conceitual em cima - e nesse sentido é um evento bastante tático, contrastando com vários outros onde a abstração chega àqueles níveis em que uma bula é necessária para decodificar qualquer coisa. Vão os meus parabéns para o Drew Hemment e sua equipe.
  • a revista digital dialogue fez uma edição especial sobre o festival. Gostei da ideia. Quem sabe a gente não faz o mesmo com o Mutirão algum dia.
  • como já comentei em outro post, eu fiquei bastante tempo brincando com o syncomasher do Moldover.
  • A Glonet funcionou muito bem. Palmas para o Distance Lab. Eu não cheguei a testar as Talking Boxes deles, mas vi gente usando e achei bem interessante.
  • Eu tinha que ir pra Londres para encontrar uma galera no sábado, então acabei perdendo o Play everything... uma pena, mas fica pra próxima.

Londinium

Sabadão, em duas horinhas de trem, cheguei a Londres. Trem com poltrona confortável, mesa e até - se eu quisesse pagar seis libras para uma hora - conexão wi-fi à internet. Fui direto para Walthamstow, deixar as coisas na casa dxs amigxs que me hospedariam. Walthamstow é um bairro meio afastado, no leste de Londres - E17, pra quem conhece o zoneamento por lá. Um bairro interessante, cheio de imigrantes de toda parte. O bairro também tem o Walthamstow Market - o mercado mais extenso da Europa, com nem me lembro quantos quilômetros. Logo no comecinho do mercado, uma cena divertida - um astronauta/ET gambiólogo, cheio de dispositivos eletrônicos, fazia música. Era quase uma gatorra vestível! Vou subir o vídeo no youtube nos próximos dias, depois incorporo aqui embaixo.

Astronauta gambiológico

No domingo, almocei em Brick Lane com o pessoal e Rob van Kranenburg. Ele me perguntou "o que a gente precisa fazer agora?" em relação à rede Bricolabs http://bricolabs.net. Eu respondi "nada. vamos deixar as coisas aparecerem". Acho que ele concordou. Mais tarde, tive uma reunião interessante articulada pela Vicky, com o Peter Forrest do TGL e uma pessoa que queria saber mais sobre o Brasil para aconselhar um possível projeto de sustentabilidade e cidades. Participaram também da reunião os diretores do Global Action Plan e da UIA - e o assistente deles, que é brasileiro.

Na segunda-feira pela manhã, estive no London Media Lab, comandado por Patrick Humphreys. Ele havia convidado integrantes da Bricolabs que estavam em Londres para uma conversa. Além de mim, estavam Vicky Sinclair, a italiana Francesca Bria, Rob van Kranenburg e o próprio Patrick. Conversamos por algumas horas - gravei tudo e vou publicar trechos interessantes assim que tiver tempo.

No dia seguinte, passei rapidamente pelo espaço que está expondo obras de Zoe Benbow, companheira de Rob La Frenais - que infelizmente não pode estar presente, porque sua mãe estava enferma. Bronac Ferran também estava por lá, e fomos para um pub conversar sobre o Brasil, a China, microestruturas e outras coisas.

Fiquei mais um dia e meio em Londres, fazendo um pouco de turismo e passeando com a família. Fui mais uma vez ao sebo logo na entrada de Notting Hill onde já fui algumas vezes. Lembrei muito do meu irmão de vida Dpadua. Acho que foi ele que me fez perceber um segundo antes de ir embora que tinha um livrinho do Alan Moore sobre como escrever para quadrinhos. Comprei. Ainda não li, vou guardar para um dia inspirado.

8 comments on Rolê, parte 2 - velhomundo insular

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